Histórias Restaurativas

História 1

 

Bullying na escola*


(Facilitação: Cléo Garcia)


Certo dia fui procurada por uma mãe de aluna de escola pública, para orientação do que fazer com relação ao ocorrido com sua filha. Ela relatou-me a seguinte história: Uma professora tirou uma foto de sua filha na sala de aula e postou no grupo de WhatsApp dos docentes, com a seguinte legenda: “Todo dia eu levo um susto!” A legenda ilustrava a foto de uma das estudantes, afrodescendente, com os cabelos cacheados (filha dessa mãe que me procurou). Uma das docentes mostrou a foto para a filha (que estava na mesma sala de aula da menina da foto) , que pegou para si a imagem, replicando no grupo de alunos da sala de aula. A menina fotografada passou a ser motivo de piadas e chacota dos colegas.


A mãe da aluna pediu que a escola tomasse providência e também me procurou para um processo contra a escola. A mãe estava inconformada e com muita raiva, pois, não bastasse o desconforto da estudante diante do preconceito, a Diretora sugeriu que ela mudasse a filha de escola como solução para o caso.


A mãe queria vingança mas, aos poucos, fui explicando como a Justiça Restaurativa atuaria e os benefícios que trariam para sua filha e para todos os alunos. Além disso, deixei claro que tratava-se de um processo muito mais pedagógico para as professoras e para a gestão, do que apenas um processo ao qual elas responderiam indiretamente. Após uma conversa franca, a diretora concordou em participar do círculo em detrimento de um processo convencional. Primeiramente, fizemos os pré-círculos com todas as envolvidas (as partes e demais pessoas indicadas por elas, além de alunos e da própria menina atingida). As professoras entenderam a profundidade do assunto. Propuseram, inclusive, a realização de oficinas e palestras, além de vivências com os alunos sobre questões de gênero e raça. A professora retratou-se perante todos e pediu desculpas à família e à menina. Além disso, pode compartilhar uma questão bastante pessoal, dizendo a todos os alunos que ela mesma havia sido criada em um ambiente cheio de preconceitos e como isso foi difícil para ela.


Quando voltei para encontrá-los, no monitoramento do pós-círculo, a situação havia mudado radicalmente: a escola estava repleta de cartazes e fotos, que registravam encontros e debates sobre questões raciais e de gênero. Além disso, a escola se uniu a uma ONG para promover oficinas de beleza com o intuito de promover uma campanha para enaltecer o poder da beleza individual. A campanha tinha como objetivo, senão exterminar, ao menos reduzir o máximo possível o preconceito, e foi um sucesso, influenciando positivamente a autoestima dos estudantes.
 

*Nomes são fictícios para preservar o princípio da confidencialidade.

História 2

Troca de Gestão


(Facilitação: Cléo Garcia)


Fui chamada para facilitar um caso entre a troca de bastão na gerência de uma organização. Em vias de se aposentar, Mário* estava treinando Cláudio para assumir seu lugar. Ocorre que a situação se mostrava um pouco delicada pois havia relatos de sabotagem de um projeto, do qual Mário estava sendo acusado de sumir com partes importantes. Ao invés de denunciar, a empresa optou por conversar com o funcionário que estava se aposentando sobre o que tinha acontecido com o objetivo de restaurar tanto as partes do projeto quanto as relações que foram rompidas. No decorrer da condução dos pré-círculos, Mário admitiu ter feito tudo que estava sendo acusado, demonstrando bastante vergonha. Por outro lado, Mário também teve a chance de expor o seu lado da história: ele relatou que vinha sendo tratado com desdém por Cláudio durante o treinamento. Na opinião de Mário, o novo gerente demonstrava desrespeito a todo o trabalho que ele tinha feito até então na empresa, onde ele sempre teve o respeito de todos. A animosidade entre os dois foi crescendo e chegou em um ponto em que só havia discussão e Mário se sentiu bastante humilhado por Cláudio.


Já no Círculo principal foram reunidos os Diretores e o encarregado de RH, além de funcionários subordinados de ambas as partes. Todos puderam falar, principalmente a parte acusada, que manifestou seu arrependimento. Contudo, Mário retomou seu discurso anterior, destacando que se sentia muito desvalorizado com a forma como era tratado. Mário relatou ainda que o fato de estar prestes a sair da empresa que considerava como seu segundo lar, vinha abalando bastante seu emocional. Cláudio desculpou-se também. Disse que não tinha a intenção de desvalorizar ou desprezar todo o trabalho construído. Pelo contrário: admirava o trabalho de seu antecessor, mas sentia que, frequentemente, tanto os funcionários quanto a diretoria, comparavam o desempenho dos dois - fato que o desestabilizava. E as restaurações do círculo não pararam por aí: Cláudio pôde admitir o temor que sentia em não dar conta do projeto. Então, ele aproveitou a oportunidade para pedir à Diretoria que o antigo gerente pudesse permanecer mais dois meses na empresa, auxiliando-o na finalização e que seria justo os dois apresentarem o projeto terminado, dando-se crédito a todos. A Diretoria concordou e fiquei sabendo que o projeto foi um sucesso!

*Nomes são fictícios para preservar o princípio da confidencialidade.

História 3

Difamação no ambiente de trabalho


(Facilitação: Cléo Garcia)


João era conhecido na empresa por suas conquistas amorosas. Por outro lado, Ana era uma funcionária muito bonita, que chamava a atenção de todos. Mas, Ana namorava e tratava João como qualquer outra pessoa, sem dar atenção às suas frequentes investidas. Porém, numa roda de conversa entre amigos, ele contou que tinha saído e mantido relações sexuais com Ana. Alguns dos colegas que a conheciam não acreditaram, porém, muitos levaram adiante o falatório de João e, em pouco tempo, a empresa toda comentava o assunto. Foi questão de tempo até a notícia chegar aos ouvidos de Ana e do namorado, que tinha amizade com alguns companheiros de trabalho dela. O nível de fofoca foi tão grande que a vítima chegou ao RH para reclamar sobre o que acontecia. Só se falava sobre isso na empresa. Por saber que essa história poderia se transformar em um processo de difamação, o RH adotou um caminho diferente. Preconizando o diálogo, convidou uma facilitadora para dar início às práticas restaurativas.


A facilitadora ouviu as duas partes individualmente. João até chegou a negar inicialmente, mas, em um segundo momento admitiu ter mentido para ganhar vantagem entre os amigos, porque se sentia diminuído e vítima de chacota entre eles. João achou que aquela era uma forma de dar a volta por cima, mas não imaginava que sua mentira tomaria tamanha proporção. Do outro lado, a vítima tinha bom relacionamento com o ofensor, porém, esse episódio fez com que seu próprio relacionamento com o namorado fosse abalado. E o fato ocorreu às vésperas do casamento, que Ana nem sabia se aconteceria mais. O resultado desse círculo foi bem inesperado: todos concordaram em participar de uma roda de conversas (o rapaz que difamou, a vítima, o namorado da vítima e os demais colegas de trabalho das duas partes). Depois de confessar o que havia feito, o ofensor pediu desculpas e se dispôs a se retratar com quem quer que fosse necessário, pois, estava realmente envergonhado pela situação ter chegado àquele ponto. Disse que estava revendo toda a sua postura e entrou num grupo para trabalhar a masculinidade.


A vítima aceitou as desculpas e ficou feliz que o próprio namorado estivesse ali para ouvir tudo. Porém, após o acordo de retratação, o ofensor pediu demissão. João ficaria à disposição, caso a empresa quisesse fazer qualquer tipo de treinamento e quisessem abordar essa história, mas achou melhor recomeçar em outra empresa, com outro tipo de postura. Seria difícil conviver ali com todos em dúvida se ele estaria mentindo ou contando outra história. Quanto à vítima, durante o próprio círculo, disse ao namorado que gostaria de postergar a data do casamento. Ana entendia que precisavam conversar mais a respeito de confiança, pois, não se sentia segura em firmar um compromisso no qual tal valor deveria ser primordial.

*Nomes são fictícios para preservar o princípio da confidencialidade.

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